Há pessoas que atravessam nossas vidas como um vendaval: chegam depressa, revolvem tudo e partem sem deixar mais que ruínas ou vagas lembranças. Outras, porém, passam como uma luz serena, dessas que iluminam sem alarde e permanecem conosco como o perfume bom de um tempo feliz. São presenças que se entranham na memória e, silenciosamente, renovam nossa fé na humanidade.
O professor Da Silva foi uma dessas raras pessoas.
Discreto e humilde, jamais exigia atenção para si. Seu trabalho falava por ele. Exercia o ofício com dedicação, esmero e uma honestidade tranquila. Quando precisava apontar as falhas de alguém, fazia-o sem dureza, com firmeza e bondade, como quem orienta mais pelo exemplo do que pelas palavras.
Da formação militar guardava a disciplina; não a disciplina áspera, mas aquela que ajuda a moldar caráter, compromisso e respeito pelo coletivo. Austero nos hábitos, generoso na essência, dedicou a vida a ensinar muito mais do que atividade física. Ensinava cuidado consigo mesmo, perseverança e dignidade. Fazia cada pessoa acreditar que ainda havia caminhos possíveis para o corpo e para a alma, independentemente da idade ou das limitações.
Lembro-me de um encontro casual, muitos anos atrás, com um amigo que eu não via havia tempos. Depois de um café na padaria, ofereci-lhe um cigarro. Ele sorriu e disse uma frase que nunca mais esqueci:
— Você fuma? Ele falou. Eu também fumava. E fumar é bom… mas encontrei algo muito melhor.
Parei antes mesmo de acender o cigarro, esperando a continuação.
—Troquei o cigarro pela corrida de rua. Faz cinco anos. Pode acreditar: é muito melhor.
Naquele momento achei graça, quase ri. Não imaginava que, algum tempo depois, aquelas palavras fariam tanto sentido.
Dois anos mais tarde, em 2007, lá estava eu na Corrida da Integração de Campinas. Tornara-me sócio da CUCA, quando tive o privilégio de ser aluno do Professor Da Silva.
Eu já contava 58 anos.
O antigo herói das propagandas do Marlboro foi sendo substituído, aos poucos, pela figura serena do professor maratonista, homem simples, corredor de grandes provas, entre elas a Maratona de Nova York e tantas outras pelo mundo. Inspirado por ele, o Parque Taquaral transformou-se no meu quintal. Uma ou duas vezes por semana, eu seguia suas orientações ao lado dos companheiros da CUCA.
Ali, mais do que aprender a correr, aprendi a escutar meu próprio corpo. O professor ensinava técnica, claro, mas ensinava sobretudo consciência: reconhecer limites, respeitá-los e, ainda assim, descobrir que somos capazes de ir além do que imaginávamos. Com ele compreendi que muitos dos nossos limites moram primeiro na cabeça, antes de existirem no corpo.
Foi assim que, aos 60 anos, dei a mim mesmo um presente inesquecível: minha primeira maratona, em Berlim.
Ainda hoje sinto o orgulho que foi cruzar o Portal de Brandemburgo, marco icônico daquela cidade, vestindo a camisa da CUCA, a poucos metros da chegada. Um instante breve, mas eterno.
Memorável!
Obrigado, professor.
Onde quer que esteja, minha gratidão seguirá correndo ao seu lado, para sempre.
W. Avila – maio26

